PARASITA – A Coreia Do Sul não é um lugar assim tão distante

Ninguém conquista a Palma de Ouro em Cannes impunemente e Parasita (que segue em exibiçãoParasite_Filme_de_Bong_Joon_ho por terras brasileiras) é mais uma prova contundente disso; o filme sul-coreano dirigido por Bong Joon-ho (Memórias de um Assassino, O Hospedeiro), apontado por muitos críticos como o melhor longa-metragem de 2019 é uma obra que propõe ao seu espectador um exercício de reflexão a respeito da natureza presente nos embates travados entre distintas classes sociais e os limites sórdidos experimentados pelos subjugados durante a penosa busca pela ascensão social. Leia mais, na matéria que segue...

PARASITA – A Coreia Do Sul não é um lugar assim tão distante

TEXTO: Iuri Freire 
FOTOS: Divulgação

“Querida, Parasite_Filme_de_Bong_Joon_hoesse botão ENVIAR é como um lançador de mísseis!”, diz um personagem à certa altura do filme, espantado com o efeito bélico que um celular assume dentro daquele contexto. Se dita há anos atrás, tal sentença soaria inverossímil, porém, nos tempos atuais sabemos que o mero envio de uma foto no whatsapp pode destruir a reputação ou até mesmo a vida de uma pessoa, o que atesta a contemporaneidade do filme em questão.

A trama é simples: gira em torno de uma família pobre habitante de uma periferia sul-coreana onde todos os seus membros (pai, mãe e casal de irmãos) estão desempregados e vivem miseravelmente às custas de um bico como embaladores de caixas de pizzas: todos ali compartilham uma existência igualmente medíocre em uma espécie de porão abaixo do nível da rua, como se fossem ratos alimentando-se dos restos de comida.

Aproveito a deixa para abrir um parêntese ao primeiro aspecto que me chamou a atenção neste filme: a periferia do mundo é mesmo una, quando se atenta para as dimensões cotidianas daquela família residente em um distante país asiático, as calamitosas afinidades saltam aos olhos: aquele muquifo poderia tranquilamente ser cenário de qualquer bairro suburbano de alguma metrópole brasileira, em dado momento temos até mesmo a aparição de um carro do fumacê, tão presente na vida dos cariocas.

Voltemos à trama: o filho mais velho, Kim Ki-woo Parasite_Filme_de_Bong_Joon_ho(vivido por Woo-sik Choi) consegue uma vaga como tutor de inglês de uma jovem pertencente a uma família de classe-média alta – os Park, e que, curiosamente, também é formada por pai, mãe e um casal de filhos, espécie de espelho burguês da família do rapaz. Após uma série de planos rocambolescos bem-sucedidos, toda a família Kim consegue adentrar àquela casa: sua irmã Kim Ki-jeong (vivida por So-dam Park) torna-se professora particular do filho mais novo, seu pai Kim Ki-taek (Kang-ho Song) pega a vaga de motorista particular e finalmente a mãe, Kim Chung-sook (Hye-jin Jang), assume o papel de governanta.

O filme está claramente dividido em dois atos, sendo o primeiro centrado nas cafajestagens perpetradas pela família Kim a fim de instalar-se naquela suntuosa casa, essa primeira metade é marcada por cenas com forte presença tragicômica e sua transição para o ato final (visivelmente mais denso) é feito por meio de um plot twist digno de humor negro assinado pelos Irmãos Coen.

O fato é que é impossível ignorar aquele que talvez seja o elemento centralizador dessa obra cinematográfica: a luta de classes. As gritantes diferenças de realidade vividas pelos dois núcleos em destaque na tela são evidenciadas de forma certeira pelo diretor, seja no manuseio de planos fechados quando é retratada a rotina da família Kim no apertado porão onde residem (destacando o semblante claustrofóbico e insalubre daquela residência), ao passo que planos abertos enfatizam a vastidão arquitetônica da moradia da família Kim; no fim de tudo um descomunal contraste emerge aos olhos do espectador.

Se no começo a harmonia parece imperar entre essas famílias, aos poucos os incômodos vão ficando cada vez mais aparentes, exemplo disso é quando o Sr. Park ao conversar com a sua esposa a respeito de Ki-taek, menciona o odor característico daquele homem que, em um momento dramático que não detalharemos por motivos de spoiler, ouve constrangido e cheira a sua própria vestimenta a fim de ratificar o que havia sido proferido pelo seu patrão.

As tensões de classe acentuam-se paralelamente a uma série de reviravoltas que desembocarão no amargo arco final. Mais do que uma obra muito bem dirigida e preenchida por um excelente roteiro e sublimes atuações, Parasita destaca-se por apresentar uma trama que soa universal a todos aqueles que residem nas camadas periféricas ao redor do mundo e que se veem ultrajados pelos males do capitalismo. Em maior ou menor grau, não é difícil identificar-se com alguns elementos vivenciados por aquelas pessoas, ainda que haja um certo tom de absurdo ali impregnado.

Dramas urbanos, angústias familiares e desejos utópicos de melhorias de vida soam universais quando contemplamos uma realidade que, ainda que geograficamente afastada, é igualmente afetada pelo mal classista que nos assola impiedosamente.

No fim das contas, nos resta a dolorosa sensação de que a Coreia do Sul não é um lugar assim tão distante. 

Sobre Bong Joon-ho...

Parasite_Filme_de_Bong_Joon_hoNascido em 1969 na cidade de Dargu, Coreia do Sul, Bong Joon-ho, produziu seus primeiros curtas na época em que cursou cinema na Korean Academy of Film Arts. Seu primeiro longa foi “Cão Que Ladra Não Morde” (2000), em seguida, “Memórias de um Assassino” (2003), que lhe rendeu maior visibilidade e foi premiado no Festival de San Sebastián. Seus trabalhos seguintes foram, “O Hospedeiro” (2006), “Mother - A Busca pela Verdade” (2009), “Expresso do Amanhã” (2013)“Okja” (2017).

Já o longa Parasita faturou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e é o filme sul-coreano indicado a melhor filme estrangeiro no Oscar. No Brasil Parasita foi exibido na 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e segue em exibição em diversas salas pelo país. #Recomendamos! - Iuri Freire*.

Parasita
DIREÇÃO:
Bong Joon-ho 
ELENCO: Song Kang-ho, Jang Hye-jin, Choi Woo-shik e Park So-dam
Gisaengchung | Coreia do Sul | 2019 | 122 minutos | Drama/ Comédia/ Thriller
TRAILER: https://bit.ly/2XL25mY
DISTRIBUIÇÃO: Pandora Filmes e Alpha Filmes

Iuri Freire* - Comunista, vascaíno, salgueirense, agitador cultural no subúrbio carioca e podcaster em Trincheiras da Esbórnia (OUÇA AQUI!).

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